ARQUITECTURA SEM ARQUITECTOS

26/07/13

Em 1964 realizou-se no MOMA de Nova Iorque, sobre a curadoria de Bernard Rudofsky, uma exposição intitulada de “Architecture without architects”. Nessa mesma exposição, Rudofsky defende a ideia de que a arte de construir é algo intrínseco à condição humana e que esse fenómeno “nada acidental” tem uma importância incontornável nos perímetros do estudo da teoria e da história da Arquitectura. Perante um modernismo em velocidade cruzeiro, este momento permitiu ser um espaço de reflexão e enquadramento da postura do arquitecto para com a metodologia, no desenvolvimento de tipologias e processos construtivos. Analisa e afirma que a construção, essa natureza universal, que perdura na oralidade e experiência entre anciãos, especializou-se e doutrinou-se na sua própria especialidade! Esta manifestação representa uma analise sobre algo comummente ignorado e que vai muito para além de modas e estilos, sendo sem sombra de dúvida a chave para o entendimento da construção como algo inerente ao presente do nosso dia-a-dia. 


A pré-modernidade demonstra-nos processos construtivos ajustados cirurgicamente a realidades sociais enquadradas por clima e realidade económica. A ignorância cientifica permitiu através da experiência, o desenvolvimento de processos exploratórios de tremenda capacidade inventiva que a futura industrialização iria aprisionar. Estes processos metodológicos de auto-expressão espacial devem ser repensados e analisados com mais cuidado pelas escolas de arquitectura. Não há duvida que o Inquérito à arquitectura Regional Portuguesa na década de 50 será mais vasto do que o revelado na obra publicada, contudo esse mesmo documento revela extensas descrições tipológicas com importantes enquadramentos sociológicos carecendo de uma analise sobre possessos construtivos de época e comportamentos/aplicação de materiais nas diversas regiões. 


As décadas de 80 e 90 do século XX, face à explosão económica, provocaram processos construtivos “alienígenas” de maneira a saciar a sede de construir. Hoje começam a desenvolver as metástases dessas mutações quer nas estruturas dos edifícios, quer no comportamento térmico no interior dos espaços habitáveis. O calafetamento da habitação por meio de novos materiais sem o cuidado da produção de processos naturais de ventilação natural permitiu o desenvolvimento de habitações que obrigaram a consequentes sistemas mecânicos de climatização ou até mesmo de ventilação forçada. 


 

Perante uma conjuntura que nos obriga a repensar tudo, será importante recuarmos e perceber as estruturas desenvolvidas por anónimos que conseguiam ao mesmo tempo combinar enquadramento com o lugar, estética apurada e funcionalidade em construções ajustadas às condicionantes climatéricas e aos recursos naturais da envolvente. Não se pretende questionar todo o processo até à exaustão, será pertinente um conhecimento mais profundo sobre este “know how” por forma a criarmos uma maior justeza e adaptabilidade das nossas casas à realidade do país.

26_07_13
Pedro Novo