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CHARTERS DE ALMEIDA: CARTOGRAFIAS, ABSTRAÇÃO DA FORMA NO CONFRONTO COM O URBANO

07/01/14

“... Naquele império, a Arte da Cartografia atingiu tal perfeição que o Mapa de uma só Província ocupava toda a Cidade e o Mapa do Império toda a Província. Com o tempo, estes Mapas desmesurados não satisfizeram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império e coincidia pontualmente com ele…” (1)


Neste excerto de citação que Jorge Luis Borges vai recuperar às Viajes de Varones Prudentes de Suárez Miranda de 1658, intitulando-o de “Rigor da Ciência”, residem quatro ideias fundamentais do processo criativo de Charters de Almeida: a Cartografia (espaço), os Mapas (síntese), a Cidade (arquitectura) e o Tempo. Na conjugação da complexidade destes temas através da sublime expressão concilia os cosmos nas suas diferentes escalas. Aí reside o talento. Com base na mensuração da distancia reconhece a cidade enquanto contexto de geometrias de riqueza humana, onde a urbe faz mais sentido. Neste esquema de leitura de dentro para fora Charters de Almeida posiciona-se perante o “mundo” adequando as suas lógicas escultóricas em potenciais referencias introdutórias de uma nova realidade. Aqui redefine o espaço, orienta o sujeito numa nova perspectiva urbana. A imposição é assumida mas o lugar respeita-a, opina mas não transgride, reage e constrói O horizonte é lançado para novos limites originais da nova cartografia. Desenham-se novos mapas redefine-se a cidade.


As “peças” pela sua natureza reagem na potência em contextos que o permitem, no entanto é na escassez de recursos que estas elevam a força da sua expressão. Quando Charters de Almeida afirma: «Procuro dizer o mais que posso com o menos possível de elementos», apesar da afirmação se elevar aparentemente contraditória na relação imediata da escala, contudo é na distância e no macro reconhecimento da cidade que o gesto assume a síntese e clarividência. 

A abstracção da forma no confronto com o urbano origina novos conceitos, a matéria e a cor mutam-se, aclarando a envolvente onde “modulor” é humano e governador da geometria. Texturas, superfícies e volumes são humanas na diferença como Espiga Pinto refere, «a geometria está em nós, nos nossos gestos, na nossa mente e na arquitectura do universo». 

 

A cidade matérica expressão urbana da convivência humana, é um emaranhado de realidades com recursos ilimitados conduzidos essencialmente no tacto e na visão. Charter de Almeida confronta o ruído diário com uma perspectiva luminosa e fracturante. As lógicas conjugadas diariamente, no confronto, redesenham-se em geometrias puras e radiosas, oferecendo algo mais além. Este percurso que atravessa o antes para o imediato ou um empolgante depois. É essencial na descoberta da obra. O lugar é assumido e construído no inconsciente despontando a ideia do depois na retaguarda do antes. A integração é total. A transparência não é matérica, mas expressiva. O tempo dirige uma certa neutralidade clássica ou naturalidade. O sítio funda-se e o lugar renasce com raízes ancestrais. Só uma consciência sensível poderia encontrar na negação do monumento a possibilidade de construção de uma dimensão maior à escala da praça. O posicionamento referencial é instruído da negação de ostentação, colonizando consequentemente o lugar. Charters de Almeida proporciona-nos uma abertura empolgante à cidade devolvendo-nos a proximidade através da distância e discrição aparente. É talvez nas variadas contradições que constrói riqueza urbana e desenvoltura estética difícil de obter em territórios acidentados de acasos e imposições.

 

Falámos sempre de cidade, a escultura diluiu-se, cartografou-se...

07_01_14
Pedro Novo