FLASHES DO MONOPÓLIO DA MEDIATIZAÇÃO

22/04/13

Entre gerações reconheceram-se lógicas conceptuais, princípios e regras deterministas de estéticas. Foi assim que se definiram correntes e metodologias. Nas ultimas décadas, a chamada escola do Porto esbateu-se no percurso académico e científico do estudo arquitectónico português. As referências existem, mas o bastião da resistência esfumou-se entre as novas tecnologias e velocidade de informação. O academismo aprisionou-se na história e não soube estender a vela ao sabor dos ventos. O advento das novas tecnologias digitais permitiu uma profunda revolução no entendimento da “verdade” da realidade. Em sobreposição ao desenho, a incontinência do disparo digital que proporcionou uma capacidade quantitativa, carregando as imagens com uma superficialidade que responde proporcionalmente aos fenómenos de mediatização tomados por modas e tendências. Os factos antes insofismáveis, que perante o olhar do fotógrafo eram captados para suportes de posterior reprodução, são hoje manipulados através de processos de “limpeza” ocultando ou acrescentando elementos observados. Projectando o fundamental da analise critica da obra construída, “no depois”. A coerência arrefeceu nos flashes de uma vontade descomprometida. No esquecimento reside o papel do mérito fotográfico, onde está recolhido o olhar do fotógrafo. A sua capacidade comunicativa será fundamental para o verdadeiro entendimento da realidade objectivada.

 

A fotografia de arquitectura sem um enquadramento artístico ou jornalístico permite-lhe navegar em terra de ninguém, conduzindo o fotógrafo à manipulação de uma verdade por nós desconhecida e provavelmente nunca comprovada. A leitura fotográfica acrítica, em negação da imagem propagandista onde o reconhecimento autoral é assumido, não passa de um conceito estético enquanto meta inacessível. O star system da arquitectura não abdica da “conclusão” da sua obra sem o olhar do “autor” fotógrafo, impondo este, uma marca própria, formatando ou ficcionando a obra ao seu jeito. Por outro lado, essa mesma personalização tenderá, perversamente, a homogeneizar também o modo como vemos o “estilo” das diferentes arquitecturas. Actualmente, a vontade de ser reconhecido entre muitos, faz da encomenda da reportagem fotográfica como o mais eficaz veiculo de difusão cultural e massificação mediática entre profissionais, estudantes e demais interessados no tema. Entre arquitectos, a qualidade final da obra é esbatida no “traço” do disparo do fotógrafo. O papel e influência que alguns fotógrafos desenham entre editores e revistas da especialidade delimitam um star system em que a qualidade da obra provavelmente não corresponde aos pergaminhos que o enquadramento fotográfico e editorial potenciam. Perante nefasta realidade, o monopólio da mediatização tem de ser interpretado e clarificado no escrutínio da qualidade. A dúvida subsiste!

22_04_13
Pedro Novo