NO FUND(Ã)O, AINDA HÁ ESPERANÇA?

15/02/2020

“Um edifício na iminência de ser demolido (Casa dos Magistrados) originou uma exposição que está a reconciliar os cidadãos do Fundão com o seu património arquitectónico”, assim noticiava a Ordem dos Arquitectos, nas suas notas informativas, a quando da inauguração da Exposição “Um destino; coisa simples” realizada na Moagem do Fundão no início de 2014. Nessa réstia de esperança, com a contribuição de um alargado grupo de fundanenses, completou-se o inventário de património arquitectónico iniciado pelos arquitectos Carlos Duarte e José Lamas na constituição do PDM do Concelho do Fundão (1985). Inventário, onde se destaca a Casa dos Magistrados, presente na exposição que acabaria itinerante pelas cidades do Fundão, Covilhã, Castelo Branco e Lisboa (entre 2015 e 2016).

A Casa dos Magistrados do Fundão é umas das referências do modernismo tardio português em particular na região da Beira Interior. O arquitecto Eduardo Paiva Lopes quando idealizou o edifício procurou definir uma implantação que respeitasse os alinhamentos do eixo da Avenida. Nos seus três pisos consegue, através do desenho de apenas uma água na cobertura, almejar a cércea do restante edificado implantado junto ao eixo viário. Estes circuitos são organizados por meio de um espaço distribuidor, referência na linha conceptual de grandes vultos da arquitectura mundial como Frank Lloyd Wrigth e Coderch. Tipologia estruturada entre áreas de carácter social e privado com uma organização muito clara ao nível da circulação entre áreas de serviço, social e privada. Talvez uma das melhores tipologias de habitação da cidade nas últimas cinco décadas. Uma lição para tantos arquitectos de algibeira que por aí vão destruindo e desconfigurando o rosto da história de tão bela cidade.

O início da demolição da Casa dos Magistrados, no decorrer desta semana, é a queda de uma das mais interessantes referências da arquitectura modernista da região e da cidade do Fundão. Uma estrutura habitacional robusta e qualificada para receber magistrados, numa época em que a discussão da habitação social era bandeira dos arquitectos. Presença moderna internacional, mas solta dos constrangimentos nacionalistas e politizados. Obra construída em 1967 com projecto do arquitecto Eduardo Paiva Lopes galardoado com o prémio Valmor em 1985. Uma figura incontornável do legado, do que podemos chamar, movimento moderno português.

Se há território em que as questões do património lhe são caras é o do Fundão. Os processos em torno da antiga casa dos Magistrados, do antigo posto de CTT, o Convento, o Externato de Santo António ou até mesmo do Cine-Gardunha são disso prova. A arquitectura moderna só recentemente foi afectada por processos de inventariação, classificação e natural reconhecimento, contudo jamais poderemos alegar desconhecimento ou incompreensão do que está em causa. O debate em torno da defesa do património tem de ser acutilante e praticado de modo qualificado e responsável. Não podemos continuamente validar investimentos, apesar de valiosos e justificados, na preservação do património imaterial e esquecer o outro, o património material! Temos de respeitar esta cidade que nos seus edifícios, esquinas, travessas e avenidas nos formou enquanto homens beirões. Como nunca, precisamos de mundividência nestas matérias pois já provámos tê-la em muitas outras.

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