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TRUDE: O TECIDO URBANO NA ETNOLOGIA DA SOLIDÃO

05/04/13

“Se ao tocar terra em Trude não tivesse lido o nome da cidade escrito em grandes letras, pensaria que havia chegado ao mesmo aeroporto donde partira. Os subúrbios que me fizeram atravessar não eram diferentes dos outros, com as mesmas casas amareladas e esverdeadas.” [1]

 

O território urbano por nós entendido de qualificado vive desde os finais do século passado um permanente processo de homogeneização nas suas capacidades de conforto habitacional, qualidades estilísticas e conceptuais. Apesar de devolver diferenças organizacionais devido a processos com base em especulação imobiliária e conquista de territórios, as vivências internas revelam processos cada vez mais intensos de uniformidade. Os materiais construtivos, artificialização de climatização e redes de informação possibilitaram ao mesmo edifício a sua edificabilidade em qualquer lugar, sem alterações construtivas, estéticas e funcionais. A casa, qualquer feitio que ela tome, pode ser concebida como um aparelho para morar ou como um monumento a ser apreciado de fora. No entanto, para quem habita e enquanto a habita, a casa não é utensílio, tal como os demais entes. A casa tem, como o próprio mundo, uma natureza pré-objectal, ela é concebida como uma parte do mundo, mas exactamente aquela parte em que nos podemos sentir relativamente abrigados. 

O habitar contemporâneo evoluiu para uma lógica de espaços reduzidos, no entanto sem diferenças substanciais na organização e dinâmica vivencial interior. Se o apetite pelo centro a isso obrigou, a cultura consumista e a exposição aos meios de comunicação potenciam novas formas de gestão do programa residencial. Os visionários do movimento moderno encontram na nossa contemporaneidade os erros das suas certezas. Partindo de um ponto crucial, a família ideal que nos anos 20 do séc. XX tanto nos fizeram crer, já não existe! As necessidades standard diluiram-se pelas diversas estruturas familiares, grupos sociais e exigências profissionais. Pensar a cidade como cultura não supõe um relato épico, uma narração do acto fundador, um inventário das tradições ou até mesmo uma catalogação dos costumes. É precisamente a renúncia na procura de linguagens comuns, costumes e identidades à maneira do etnógrafo Neste processo considera-se que a cultura urbana assim como a cidadania definem o ethos da nossa modernidade. Opção de vida concretizada em projectos reconhecidamente construídos sobre um tecido cultural complexo e interligado. Se o movimento é constante, as redes de transportes são aglutinadoras do tempo e movimento físico. O movimento adquiriu nas ultimas décadas a virtualidade. A cidade física vive de layers que talvez ainda não compreenda. Debate-se com a definição dos limites físicos onde procura encontrar um sistema diferencial que possa determinar os limites entre o urbano e a envolvente, enfrenta uma nova e determinante realidade o movimento aliado aos meios de comunicação.

A arquitectura e o urbanismo não devem pedir na nossa contemporaneidade soluções a níveis globais - questionando soluções locais - não deixa de ser pertinente realçar o papel que o arquitecto tem perante os contornos que as nossas cidades enfrentam no seu sentido cada vez mais macro e metropolitano, como também na definição das respostas  perante o desenvolvimento urbano. O arquitecto não conhece o novo habitante e procura através da inovação formal respostas a problemáticas de cariz funcional e programático. Erradamente ignora as necessidades do homem urbano, oferecendo estratégias desadequadas ao modus vivendi citadino. No entendimento de Bachelard, “a casa é um corpo de imagens que dão ao homem razões ou ilusões de estabilidade”  [2], talvez aqui se resumam as questões centrais das habitações nos centros das cidades. O crescimento em altura promoveu a construção de maior numero de unidades habitacionais por metro quadrado, obrigando consequentemente a sua diminuição espacial interior. Se nas últimas décadas vivemos eras de consumismo, onde o culto do objecto gerou seres recolectores, uma “consumer culture has placed a high value on produt variety” [3] e ”une architecture ignoirante de ses moyens spécifiques, cache sa misère en se vendant á l'índustrie, en s'ídentifiant la l'object et, adorant le veau d'or automobile, fuit la responsabilité de la prévision de son futur en devenant mobile”[4], o desenvolvimento digital conseguiu devolver ao espaço o seu lugar e tornou-o agora sim habitável. As bibliotecas mutaram-se em bytes, o ter no usufruir, o estar no “poder ir” e o telefone na máquina de tele-transporte. A cama, a web e um recipiente de lixo serão os objectos fundamentais da casa do futuro na óptica de Toyo Ito[5], apesar desta perspectiva intimista Eisaku Ushida entende por outro lado que a era digital inverteu a lógica do eixo interior/exterior, definindo que a casa is “now found scattered around the city, and communication now takes place not only in a physical place but also in electronic space.” [6] Talvez este carácter de nómada urbano de Toyo Ito, de uma vida dispersa pelos diferentes eixos da cidade, onde os ginásios e piscinas substituem a casa de banho, o fast-food pela cozinha, os cybercafés a sala de estar e os parques as varandas e terraços, dinâmica que gera espaços “privados” cada vez mais fragmentados e diluídos pelo aglomerado urbano a que chamamos cidade. Futuro que Augé profetiza: “haverá então lugar, no futuro, há talvez já lugar hoje, apesar da contradição aparente dos termos, para uma etnologia da solidão.”[7]

 “Porquê vir a Trude?, interrogava-me. E já queria partir. - Podes apanhar o avião quando quiseres – disseram-me, - mas vais chegar a outra Trude, igual ponto por ponto, o mundo está coberto por uma única Trude que não começa nem acaba. Só muda o nome do aeroporto.” [8]

 

 

[1] Calvino, Italo, As Cidades Invisíveis, Editorial Teorema, 2ª edição, 1996, pag 131

[2]  Bachelard, Gaston A poética do Espaço,Martins Fontes, são Pulo, 1989, pag 36

[3] Thomas, Ann, No Man´s Land, Thames &Hudson,2001,pag 20

[4] Parent, Claud, Architecture Principe 66,Les Éditions de Límprimeur,1996,pag 80

[5] Ito ,Toyo, Forum Internacional, mutações, habitações e fluxos, Barcelona 96

[6] Ushida, Eisaku, Forum Internacional, mutações, habitações e fluxos, Barcelona 96

[7] Augé, Marc, Não Lugares, Bertrand Editora, 2ªedição,1998, pag 125

[8] Calvino, Italo, As Cidades Invisíveis, Editorial Teorema, 2ª edição, 1996, pag 131

05_04_13
Pedro Novo