...slow down, my friend.

29/01/2020

Existem filmes que ainda me assaltam a memória, não pela sua qualidade ou pelas performances dos actores mas pelo momento ou estado de alma em que os vi pela primeira vez. Ainda hoje não percebo da sua importância nas minhas memórias, mas a verdade é que os revivo, no todo ou em partes, constantemente. Na sua recordação acabam por ser uma bússola para pensamentos e reflexões. Entre todos, há um que acaba por ser o que mais me “perturba”, talvez o que melhor revivo, é uma espécie de reflexão contemporânea sobre as actuais life stop motions.

 

Numa longínqua noite de braseira através do antiquado zapping televisivo, parei na RTP2 onde cruzei olhares com Smoke. Uma bela surpresa de Natal, filme realizado por Wayne Wang e com argumento do maravilhoso Paul Auster. A narrativa centra-se em Brooklyn em torno de uma tabacaria de esquina, o seu proprietário e nas vidas dos clientes quotidianos. Entre conversa de cigarros, o proprietário, Auggie, revela a Paul o seu arquivo de fotografias tiradas entre 1977 e 1990. Fotografias com o mesmo ângulo e focadas na esquina do outro lado da rua. Retratos de um cenário citadino nova-iorquino entre a 3ª Rua e a 7ª Avenida. Mais de quatro mil fotografias sobre a mesma realidade, independentemente das condições climatéricas, do contexto do momento ou das figuras em trânsito. Todos os dias pelas oito horas da manhã, o flash dispara sobre a mesma “realidade”! Contudo apesar da surpresa o mais comovente é o extraordinário diálogo que ocorre entre as duas personagens. Auster não poderia ser mais certeiro!

 

“ Paul: I'm not sure I get it, though. I mean, how did you ever come up with the idea to do this ... this project? 

  Auggie: Just come to me. It's my corner after all. I mean, it’s just one little part of the world, but things take place there, too, just like everywhere else. It’s a record of my little spot. 

  Paul: It’s kind of overwhelming. 

  Auggie: You’ll never get it if you don’t slow down, my friend. 

  Paul:  What do you mean? 

  Auggie: I mean, you’re going too fast. You’re hardly even lookin’ at the pictures. 

  Paul: But... they’re all the same.

  Auggie: They’re all the same, but each one is different from every other one. You got your bright mornings and your dark mornings. You got your to summer light and you your autumn light. You got your weekdays and your weekends. You got your people in overcoats and galoshes… and you got your people in t-shirts and shorts. Sometimes the same people, same time different ones. Sometimes the different ones become the same and the same ones disappear. The earth revolves around the sun, and every day, the light from the sun hits the Earth at a different angle. 

  Paul: Slow down, huh? 

  Auggie: That’s what I’d recommend. You know how it is. “Tomorrow and tomorrow and tomorrow… time creeps on its petty pace.”

O mais interessante neste relato é a “verdade” que subsiste na natureza destas imagens. Uma “verdade” de Auggie é certo, mas profundamente crua na sua relação com a arquitectura do espaço e com quem o habita, sem subterfúgios ou manipulação, mas com o natural ruído do acaso! A nossa contemporaneidade já não está preparada para slowmotions, estando a actual incontinência do disparo digital, proporcionalmente associada à quantidade de ferramentas de manipulação. É aqui que subsiste o actual problema da mediatização e na construção mental das realidades. O fotógrafo de arquitectura é hoje uma figura central na revelação ou não da verdade da obra construída. A coerência com a realidade desapareceu nos flashes de uma vontade descomprometida. Sabendo porém que a fotografia acrítica estará num patamar de inacessibilidade, contudo a objectividade será sempre deturpada pelo “autor” fotógrafo. A construção de uma linha estética, onde o olhar de alguém impõe uma marca própria, formata ou ficciona a obra no seu “traço”, com profunda tendência a homogeneizar perversamente o modo como olha para a diferença! A influência que alguns fotógrafos da actualidade constroem entre editores, websites e revistas da especialidade de arquitectura delimitam um star system em que a qualidade da obra não corresponde aos pergaminhos do enquadramento fotográfico. Perante nefasta realidade, o monopólio da mediatização tem de ser interpretado e clarificado no escrutínio da qualidade!
 

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